fbpx

Coach ou Psicólogo: qual devo escolher?

Recentemente a novela da Globo “O outro lado da vida” se envolveu em uma grande polêmica. Em sua trama, uma personagem apresenta diversos prejuízos consequentes de um abuso sexual e é “tratada” por sua advogada que tem capacitação em coaching.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) reagiu e acusou a Globo de fazer um desserviço.

Mas, afinal, não seria um exagero por parte do CFP? Qual a diferença da atuação de um coach e de um psicólogo?

Bem, primeiramente é absolutamente normal confundir essas duas áreas. Isso porque, da mesma forma que a educação física e a fisioterapia; neurologista e psiquiatra, o psicólogo e o coach compartilham um mesmo campo em comum. Só que saber diferenciar essas duas profissões pode ser a chave para não perder tempo, não perder dinheiro, ou ainda piorar a sua situação.

Profissionais que trabalham com coaching tem se multiplicado em uma velocidade absurda. E não é a toa. A maioria das pessoas tem alguma idéia do que quer para o futuro, mas sente-se perdido no que fazer para alcançar um objetivo. Bons coaches lançam mão de diversas estratégias de organização e priorização, a fim de ajudar seus clientes (chamados de coachees) a desenvolverem um planejamento mais eficaz para atingir a uma determinada meta.

Além disso, curiosamente, nos últimos anos, temos percebido que muitas dessas estratégias podem COMPLEMENTAR o tratamento de determinados transtornos psiquiátricos como transtorno de déficit de atenção e algumas formas de transtorno alimentar. O que significa que coaches treinados podem fazer parte de uma EQUIPE multidisciplinar no tratamento de algumas condições mentais.

Mas, então, um coach poderia substituir um psicólogo?
A resposta é: Não!

À começar pelo fato de que os transtornos mentais não representam metas a serem superadas. O psicólogo atua sob um plano mental mais profundo. Não é para menos que seja exigido 5 anos para concluir sua formação.

Para entender, na prática, como um psicólogo trabalha, pense no seguinte cenário:

Imagine que você está em uma mesa conversando com seus amigos, quando resolve avisar a todos que acabou de pedir demissão do seu emprego. Só que, ao contrário das suas expectativas, ninguém pareceu dar muita bola para o que disse. O que passaria pela sua cabeça? O que você pensaria?
Talvez que seus “amigos” não estão muito interessados no que você diz, e que por isso não são tão amigos como você esperava. Com isso em mente, é provável que você se sentisse excluído, envergonhado, desimportante. E consequentemente tivesse vontade de voltar para casa um pouco mais cedo.

Agora, imagine que nesse mesmo cenário, ao invés de pensar que ninguém estava interessado em ti, você pensasse que ninguém te respondeu porque nenhum deles escutou, ou quem sabe estavam distraídos. Poderia ser inclusive que não fizessem idéia da importância que seu emprego tinha para ti… Com essa perspectiva, concorda que você definitivamente se sentiria e se comportaria de forma diferente do cenário anterior?

Isso serve para mostrar como a maneira de pensarmos e interpretarmos o mundo pode modular completamente a forma como nos sentimos e nos comportamos. E o psicólogo investiga, junto com seu paciente, como seus padrões de pensamentos podem estar afetando a sua vida.

Esta é a razão para os primeiros profissionais à serem acionados para cuidar de uma pessoa com um transtorno ou sofrimento mental intenso ser o psicólogo e/ou o psiquiatra.

Acontece que no Brasil, as novelas tem um alcance gigantesco, ainda maior do que as escolas e livros didáticos. Diante disso, a mídia brasileira não pode ser responsável apenas pelo entretenimento e notícias. Ela também possui uma RESPONSABILIDADE SOCIAL por TUDO o que vai ao ar, inclusive as histórias, que podem tanto informar quanto desinformar o público que a assiste.

O CFP acusou a emissora de um desserviço por mais de uma razão:
Primeiro, ela perdeu uma oportunidade de ouro para apresentar corretamente como deve ser tratado alguém que sofreu abuso sexual. Um cenário epidêmico em nosso país. Se tivessem agido corretamente poderiam ter enfraquecido a imagem absurda que grande parte da nossa sociedade tem da psicologia – “uma especialidade para gente fresca, rica, fraca ou maluca”.
Além disso, tratou-se de um desserviço também para os próprios coaches, pois não apresentou à população como esses profissionais realmente atuam. Pelo contrário, possivelmente haverão vítimas de abuso sexual batendo nas portas de coaches à procura do melhor tratamento possível para si. E aí, olha que pepino: não há pesquisas consistentes mostrando como o coaching pode ajudar pessoas traumatizadas por assédio sexual. O que também significa que ainda não sabemos se essas mesmas técnicas (usadas para ajudar) podem acabar PIORANDO o sofrimento de indivíduos nessas condições.

Por esse motivo, muito cuidado é pouco quando se fala de tratar sua saúde física ou mental. O fato de não envolver remédio não significa que seja necessariamente seguro. Coaching é um grupo de técnicas sensacionais! E um bom profissional reconhece que elas funcionam especialmente bem para quem NÃO está sofrendo de alguma condição psicológica ou psiquiátrica importante. Então, na dúvida, converse com seu psi* de confiança.

Compartilhe pelo WhatsApp:

4 thoughts on “Coach ou Psicólogo: qual devo escolher?

  1. CIDA RIO says:

    Mesmo sem formação no assunto, também achei estranho a abordagem do assunto tão sério, acho que houve falta de informação e pesquisa sobre como conduzir o assunto.

    • Dr. David Sender says:

      Obrigado pelo comentário Cida. De fato, trata-se de um assunto delicado e muito grave. Por mais que se trate de uma ficção, devemos escolher bem o que é transmitido, para usar programas (até de entretenimento), para o bem, instruindo, e não desinformando a população. No final das contas, tanto o coach quanto o psicólogo tiveram suas funções distorcidas, e quem sai perdendo é o expectador.

Comentários não permitidos.

WhatsApp chat
X